segunda-feira, março 17, 2008

Nosso pequeno cotidiano medieval

Chama-se Idade Média o período compreendido entre a Antiguidade e o Renascimento, cujo início acontece após a queda do Império Romano no Ocidente, no ano 476. Calma, leitor: eu não estou aqui para dar uma aula de História Geral. Essa introdução serve apenas para mostrar como a tal “época das trevas” está longe de nosso dia-a-dia. Hoje não vivemos em feudos, não usamos galináceos e legumes como moeda e não somos chamadas de milady pelos homens (o que é uma pena).
Mas, se repararmos bem, alguns resquícios medievais continuam presentes mesmo em pleno século 21. Além dos impostos que teimam em castigar o trabalhador para enriquecer uma elite exploradora (puxa, será que não vai mudar nunca?), também temos a prática da tortura. Isso mesmo! E não pense que os métodos são aplicados apenas pela polícia abusiva e por adeptos ao sadomasoquismo. Nós somos torturados diariamente e a todo o momento.
Se carrascos daquele tempo vivessem nos dias atuais, aposto que ficariam felizes de ver alguns suplícios fazendo escola...
Ontem: Máscara de ferro
Hoje: Aparelho odontológico
Ficar com o capacete fechado em torno de sua cabeça não é nada perto do que pessoas de dentes irregulares precisam enfrentar. Aposto que na Idade Média você não precisava ser sorridente e ter uma aparência limpinha. Pois agora o preço para se conseguir isso é um monte de ferro apertando a mandíbula! Sem contar a dor-de-cabeça, as aftas e a proibição de comer pipoca. Somando-se motorzinho, sugador e anestesia que teima em não pegar... Dentistas são algozes ou o quê?

Ontem: Gaiolas suspensas
Hoje: Poltrona de avião
Você é um sortudo que possui férias de trinta dias e algumas economias guardadas? Então um lindo período passado no exterior pode ser a melhor opção. O problema é o que separa você do ponto turístico: dezenas de horas dentro de uma lata de sardinha. Pendurar a pessoa em uma gaiola de ferro é canção de ninar quando se faz isso a quilômetros de altura e ainda cobrando preços exorbitantes. Sem chance de esticar as pernas ou de dormir direito. E com comida ruim.

Ontem: Fogueira
Hoje: Salto alto
Os inquisidores eram burros. Mal sabiam que existe uma tortura muito melhor que fogueira para se obter revelações: salto alto! Se pegássemos as supostas bruxas que não confessaram o delito mesmo queimadas vivas, colocássemos nelas um salto stilleto (aqueles longos e ultrafinos) e as botássemos para andar pelas calçadas esburacadas e remendadas da cidade, contariam até sobre a vez em que roubaram o lanche da coleguinha nerd durante o recreio do pré-primário.

Ontem: Tortura chinesa
Hoje: Reforma no vizinho
Oriental é zen até para bolar torturas: a chinesa consistia em deixar uma goteira incessante na testa da vítima até ela perder a sanidade mental – o que podia demorar meses ou anos. Como a reforma no seu vizinho, né? Mas ao invés da gotinha d’água, tem-se o martelo quebrando pisos, a furadeira esburacando paredes e a serra-elétrica cortando peças, em uma sinfonia cadenciada e constante, cruelmente patrocinada pelos mais medievais dos infernos desde as nove da manhã.

Ontem: Submersão em azeite
Hoje: Depilação
As mulheres daquela época é que eram felizes – seus longos vestidos não deixavam à mostra o horripilante par de pernas peludas. Nós não podemos usufruir dessa vantagem e, portanto, precisamos nos submeter à cera quente que arranca os pêlos até a raiz. E, novamente, pagamos pela ação e ainda a repetimos com freqüência. Valha-me Deus! A depilação, a manutenção da sobrancelha e a escova no cabelo deixam no chinelo qualquer submersão em azeite borbulhante.

Ontem: Masmorra
Hoje: Ônibus cheio
Quando carrascos estavam de bom-humor, atiravam os prisioneiros a um quartinho apertado, úmido e fedido, onde seus gritos por socorro não podiam ser ouvidos. Engraçado, mas a definição da masmorra me lembra muito um coletivo em dia de chuva na hora do rush! O povo se acotovelando por espaço, respirando um ar viciado por conta das janelas fechadas, o cheiro de cecê na atmosfera... O cárcere parece passeio no parque quando comparado ao Usina-Praça Mauá às seis da tarde.
Ontem: Empalação
Hoje: Exames ginecológicos
Não há quem não faça careta ao ouvir falar sobre esse método tão cruel – no qual era enfiada uma estaca em... hã... orifícios humanos onde o sol não bate. Desagradável pra dizer o mínimo. E meu achômetro é baseado nos invasivos exames ginecológicos: puxa, nós nos guardamos tanto para a pessoa certa (bem, algumas de nós) e vai logo um desconhecido adentrar as vergonhas com aparelhos estranhos? Só quem passou pelo ultra-som transvaginal sabe do que estou falando.
Era muito, muito melhor.

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