segunda-feira, março 17, 2008

Pobre Natália *

“... e aí eu até abaixei o volume da TV para ouvir o que ela estava falando, mas não entendi nada. Hã? Não, menina. É que essa confusão toda começou assim, ó: a Natália tinha um trabalho para fazer, em grupo. É, na escola. E ela já tinha me contado que na classe dela, tinha um grupinho de menina que fumava maconha. É, fumava maconha! Na escola. Elas iam, entravam, né?, mas não iam para a classe. Ficavam no banheiro, magina, fumando essas coisa (sic) aí.
Daí, teve esse trabalho para fazer, como se diz?, em grupo. E a professora que separou os grupos, e botou essa menina, essa favelada, para fazer com a Natália, cê acha?! Quando a Natália me contou... [pausa dramática. Suspiro incisivo.] Ah, mas eu não quis nem saber. A Natália queria que a menina viesse fazer o trabalho aqui em casa! E eu falei para ela, falei assim, ‘Natália, nem pensa em trazer essa favelada aqui, não! Magina, o pessoal do prédio me mata! Se quiser, vão ficar no máximo no salão’.
E ela ainda brigou comigo, menina, falou assim ‘e se a menina quiser tomar um copo d’água, mãe, ou precisa ir no banheiro?’, mas eu já fui logo avisando: não vai vir aqui e pronto. Inventa uma desculpa, fala que sua casa pegou fogo, [pausa para rir da própria piada] ah, ah, ah!, sei lá! Aqui, não! Aí ela me vira e me fala assim: ‘então, tá, então eu vou lá na casa dela, mãe’, vê se pode! Eu disse ‘Natália, tá louca? Mas você não vai mesmo! Agora vai ter que ir fazer trabalho na favela, onde já se viu? Fala com a sua professora que você precisa de outra dupla.
E ela ‘mas mãe, ninguém tem culpa se é pobre’, e eu logo avisei ‘se tem culpa, se não tem culpa eu sei lá, mas é tudo maloqueiro, né?’. Um monte de preto, menina. Juro. É, preto mesmo. Você precisava ver, outro dia eles tinham que fazer um trabalho, iam entrevistar umas pessoas assim, na rua, sabe? Arrumaram câmera, microfone, tudo. Tinha que ir lá na frente do shopping. Aí, acho que só eu que tinha carro, né? [risadinha irônica], a Natália me pediu para levar.
Quando chegaram aqui... [pausa dramática]. Um monte de preto, menina! Tudo com aqueles cabelos assim... Não, não. Não era tipo black power. Se fosse, ainda tava bom! Era mais assim, parecia um monte de espeto, umas maria-chiquinhas para cima, só os toquinhos, sabe? Cê não sabe o que eu fiz. Puxei o freio de mão, mas não tudo, só um pouquinho. Aí, disse que o carro tinha enguiçado. Eu é que não ia andar com esse monte de preto no carro, ia acabar sendo parada pela polícia!
Mas então. Voltando. Daí eu falei pra Natália que ela não ia na favela coisa nenhuma, nem a menina vinha aqui. Ela não tinha coragem de falar para a professora, aí falou para a inspetora. Mas a inspetora era uma preta, também. E deve ter falado para a professora que eu tava sendo racista, sei lá. Aí a professora mandou um bilhete para mim, dizendo que se a Natália não fizesse o trabalho ia dar zero para a menina e ainda ia me processar. Pode?
Ah, eu não quis nem saber. Fui lá, soltei os cachorro (sic). Falei um monte, um monte mesmo. E ainda disse que eu é que ia processar a professora, que cadê o diretor dessa escola, que fica um monte de gente fumando maconha? E a mulher achava que tinha razão, menina! É... Então, falei para ela ‘pode me dar a carta de transferência da Natália já!’. Tirei, tirei... Não quis nem saber.
Eu não sou de discriminar, sabe? Por que eu sei que tem gente que não tem condições, né? Mas com essa gente aí, vai saber... É que nem os turcos. Hã? Fala mais perto, não tô te ouvindo. É meu telefone, ele tá ruim assim o dia inteiro. Ah, mas eu gosto do Bush! É, eu sei, ele é doido. Mas tá ajudando a gente, né?, matando os iraquiano (sic)... Se eu sou ele, sabe o que eu faço? Pego aquele lugar, como diz?, Aushs... Auks... Auschwitz, é, isso mesmo!, e mando tudo para lá!
Não, eu sei, tá fechado... Mas tá lá de pé, era só mandar encher de gás de novo. Afinal, essa gente é tudo doida mesmo, vive se matando entre si. Vê se a gente faz isso? Era só dar uma mãozinha...”
Podem me xingar. Não porque esse discurso cheio de maldade seja meu, mas porque tive a ousadia de, ao pegar uma linha cruzada, ficar ouvindo bem quietinha em vez de desligar logo. Mas parece que o bom Deus já me castigou pela curiosidade: foi exatamente isso aí em cima, salvo pequenos deslizes de memória gerados pela hora e meia de diferença entre o acontecimento e a redação, o que meus pobres ouvidos agüentaram. Até que, no ponto do gás, meu limite de tolerância chegou.

Das duas, uma: ou foi tudo uma pegadinha (sem graça) ou preciso mesmo encarar que existe, sim, gente que pensa desse jeito. Gostaria de acreditar mais na primeira opção. Depois de tanta boçalidade, faço votos para que a Natália* fique grávida de um preto enorme, lindo, muçulmano e muito rico. Tipo Muhammad Ali. Que eles se casem, mudem para um palacete incrivelmente luxuoso e mandem a infeliz da mãe dela prum asilo. O Arkham, de preferência.
* O nome foi trocado. Tive pena da menina. Já basta ter uma mãe assim, né?

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