segunda-feira, julho 31, 2006

Os Crustáceos Também Choram

Minha vida nunca foi das mais fáceis. Quando nasci, eu e meus 358 irmãos já caímos soltos no mundo, apesar de nosso ainda frágil e diminuto corpo invertebrado. Mamãe não se deu ao trabalho de nos abraçar com ternura, aquela ingrata. Nem ao menos acenou ao longe com suas antenas. Apesar da composição simplória de nossa espécie, temos coração também! Sofremos. Guardamos rancor. Passei muito tempo com essa tristeza dentro de mim, até que soube, meses depois, que mamãe havia partido para todo sempre. Foi parar dentro de uma moranga, decapitada, na festa de algum grã-fino.

Embora isso pareça uma tragédia, não é. Pelo menos, não para mim. A verdade é que minha vida é muito chata, sabe? Eu passo os dias e as noites comendo plâncton. Você já comeu plâncton? Sorte sua. É muito ruim. Não enche barriga. Não posso nem dizer que “tem gosto de frango”, porque nunca experimentei frango. Nem bolo de chocolate. Nem batata frita ou sorvete de baunilha. Apenas plâncton. Isso, é claro, quando não bate o desespero por um sabor diferente e eu, bem, eu como dejetos de peixes. Por favor, não fique com nojo de mim. Eu preciso desabafar.

Você pensa que eu não ouço os comentários? A sardinha me chama de “inseto chato”. A barracuda diz “aquele, nem vale a pena atacar!”. A estrela comenta “se eu fosse feia desse jeito, fugia para o escuro abissal!”. O tubarão passa por mim e nem nota a minha presença. Imagine, o maior predador de todo o meu mundo, o assassino sanguinário e cruel, nem sabe que eu existo! É muito frustrante. Já pensei no pior, em abandonar de uma vez minha vida, deixar tudo para trás. Mas não consegui. Quando pulei do precipício, flutuei. Nem para me matar eu presto.

Outro dia reencontrei um dos meus irmãos. Ele havia crescido bastante. Trocou de exoesqueleto várias vezes, estava forte e rosado. Mal o reconheci. Se não fosse pelos nossos olhos – temos os mesmos olhos negros – nem o teria notado no meio de seus amigos, também parrudos. Eles estavam comentando como o “pessoal lá de fora” gosta de nós. Como somos apreciados “no mundo seco”. Foi ele quem me contou sobre o destino de mamãe. Falou todo orgulhoso que ela havia sido o destaque da moranga, que todos a queriam. Que a pessoa que ficou com ela até fechou os olhos de deleite ao prová-la.

A turma do meu irmão estava reunida ali para esperar pela rede. “Que rede?”, perguntei. “A rede que vai nos levar lá fora, seu tonto!”. Disse que também queria ir, que queria conhecer novas paragens, que queria uma aventura em minha vida sem sentido. Também queria ser o mais cobiçado da moranga! Finalmente, eu vislumbrava um futuro, um objetivo. “Você não pode ir, caipira”, retrucou um dos amigos. “Olha o seu tamanho, você vai parar no lixo se te pescarem!”. Sim, eu era muito pequenino, sabia disso. Mas mesmo assim, fiquei ali. O lixo era melhor que comer cocô de peixe. O lixo era melhor que ser aporrinhado pelos outros. Sim. Eu fiquei. E a rede veio.

Fomos todos parar em um local estranho. Seco, iluminado. Estávamos dentro de um compartimento, ainda tontos pela viagem, quando meu irmão gritou “Vejam, um humano!”. Todos nós fizemos “Ooooooh”. O humano começou a nos separar. Quer dizer, a me separar. A turma do meu irmão partiu, gritando de alegria. E fui jogado em um local com mais alguns semelhantes, todos pequeninos como eu. Eles disseram para eu não me preocupar, porque um dia ainda faríamos a alegria de alguém. Sentei-me em um canto e comecei a sonhar com esse dia.

O tempo passou. E passou. E passou. Já estávamos nos sentindo esquisitos. Estava quente. Havia um cheiro estranho no ar. Cheiro ruim. Até que o humano veio, nos pegou e nos jogou em um óleo fervente. O óleo era escuro, tinha gosto de outros companheiros que haviam passado ali antes de nós. Fomo fritos. Depois, fomos enfiados em um espeto de madeira. Iupi, vamos ser vendidos! Enfim alguém iria me apreciar! Iria me dar valor! Iria dar um sentido para a minha existência! E lá fomos nós, cantando em uníssono, felizes. Eu era pequeno sim. Eu estava cheirando mal sim. Mas tudo bem. Era a minha hora de brilhar! Era a minha hora de ser cobiçado e amado e...
...
Ah, finalmente o moço do espetinho de camarão resolveu aparecer! Ô companheiro! Aqui! Pô, achei que tu não ia passar hoje, irmão! Demorou, rapá! Esse tá do bom? Tá fresquinho? Maravilha, aí vai dois reais. Falou, chapa. Hmm... vou até pegar a cervejinha aqui do isopor pra acompanhar. Ah... férias, mar, sol, mulher bonita, cerveja e um camarãozinho... Que mais eu poderia querer? Vou começar por este aqui na ponta, o menorzinho, como aperitivo!
...
Putaquepariu, essa porra tá estragada!

5 comentários:

Anônimo disse...

não vamos apenas vislumbrar um belo futuro ... ainda teremos muito o que contar ...

coisas belas, histórias encantadoras e vamos poder dizer ... minha vida eh completa ... e sou feliz ao extremo e realizada ao máximo ...

estranho desabafar ...
mas faz parte, eh um mal necessário demais e que ainda que doa, acaba fazendo muito bem ...

sempre que precisar a nicke vai estar aqui ... ou melhor, aí do seu lado te dando a mão e muitos motivos pra vc se lembrar de viver e esperar os proximos dias chegarem ... entendeu neh ?

toh do seu lado!
sempre ...
apesar desse pouquissimo tempo ...
tuh jah tah aqui dentro ...
guardadinha e isso cresce ... floresce e vai ser sempre assim ...


adoro vc beta!

Anônimo disse...

Te Amo garota linda!

Odeio te ver assim cara ... Apesar dos nossos problemas serem somente nossos e niguém ter nada a ver com isso ... Mas eu tenho a ver com os seus, mesmo que nem saiba exatamente quais são ... Querer ajudar e te ver feliz fazendo por onde, é por ai que começo.
Sabe que precisando é só falar ... Não te negaria nada ... As vezes um abraço bem dado é melhor que palavras.
Pra mim você é gigante e guerreira e isso que me faz gostar de você.






É só chamar ...

Anônimo disse...

LINDEZAAAAAAAAAAAAAAA

Anônimo disse...

BONITONA

Anônimo disse...

QUERO VER A BETAAAAAAAA