O garotinho alojado dentro de mim não é o primeiro a estar diante das câmeras de exame, e certamente não há de ser o último. Lá no laboratório todo branco e chique, eles fazem isso como quem comanda um lava-rápido. Entra uma mamãe preocupada, sai uma mamãe sorridente com a foto ultrassônica de seu alienzinho. Na primeira vez, confesso ter ficado meio apreensiva. Hoje, visito o recanto como quem vai ao clube!
Precisam ver que coisa mais engraçada. Você espera e espera. A moça vem e, na salinha silenciosa, te deita numa cama e desabotoa sua calça – sem cerimônia, mas gentilmente. Então, espreme um gel gelado na barriga. E só isso já me faz cair na gargalhada toda vez por conta da cócega. As amáveis funcionárias pensam que sou meio retardada. E eu sou mesmo, elas estão certas.
Não sou, porém, aquele tipo de gestante molenga, capaz de se emocionar e cair no choro copioso à mínima aparição de manchas cinzentas na tela. Até porque, a médica sempre precisa me informar o que está focalizando no momento. Ela sabe: se não me explicar em detalhes, vou achar que a perna é uma orelha e que a boca sumiu. Para mim, Guilherme no ultrassom e imagens do primeiro homem caminhando sobre a Lua são perfeitamente confundíveis.
Meu filho há de perdoar a falta de sensibilidade, mas acontece assim mesmo. Primeiro, porque sou meio míope. Segundo, porque nunca fui boa em decifrar aqueles quadros tipo “olho mágico”. É preciso uso muito eficiente dos dois lados do cérebro para captar exatamente onde a doutora está vendo um rim ali. Eu, então, me limito a perguntar “a senhora jura que está tudo aí, no lugar? Que beleza!”.
Acredito no que me contam e, hoje em dia, nos seis meses de aguardo, acredito também que aquela boquinha mexendo não é ilusão de ótica ou um vídeo forjado para acalmar mães. Guilherme já faz gracinhas mesmo! Já abanou a mão abertona para a gente confirmar seus cinco dedos. Já estampou o pé na TV e me garantiu que gastarei rios de dinheiro com sapato. Já provou que é de fato um menino – e como faz isso com facilidade extrema, fico imaginando se precisarei tocar namoradinhas aqui de casa antes ou depois dele fazer 15 anos...
Também já me pregou um susto danado, o pequeno monstro. Na última visita ao Projac dos Bebês, ele se recusou a entrar em cena. Estava lá, deitado e imóvel, se recusando a apresentar o rosto. Para piorar, a mãozinha estava imóvel numa posição estranhíssima: dedo indicador esticado, polegar idem, demais dedos dobrados. Mais ou menos como fazem os traficantes de morro ao encenar as palavras “vou te furar de bala, mano!”. Fiquei alarmada. Será que o garoto será bandido? Será que estava tudo bem e aquilo era apenas uma soneca esquisita? Será que ele já está tirado sarro da nossa cara antes mesmo de nascer?
A última opção mostrou-se correta. Dias depois, complementando o exame, checamos que ele não está com a mãozinha rígida no “formato arma de fogo”. Está ótimo, grande (32 cm), gorda (715 gramas) e safado. Assim que a mamãe gosta. Não chegamos ao ponto de levar fita VHS para gravar as peripécias, acho uma besteira... Quem vai ver aquilo? Minha prima gravou o casamento dela e, anos depois, colou por cima um filme de Sessão da Tarde, de tão chato que era o registro matrimonial. Se eu gravar um ultrassom, vou acabar dormindo sempre no meio, antes de chegar na “emocionante” parte da... bexiga.
Melhor é guardar na lembrança o quão divertido é ver o bebê ao vivo, sem edição ou replay. Nunca um desenho preto-e-branco, desfocado e incompreensível pareceu tão encantador. E eu mal posso esperar para ver meu borrãozinho-Guilherme de novo!
2 comentários:
nhoim!!! que venha o guigui!!
Ele lá...nadando em uma bexiga de fluidos que, devo imaginar, deve ser extremamente confortável, e a gente aqui...morrendo de vontade contar os dedinhos dos pés. Todos do tamanho de um feijãozinho.
=)
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