quarta-feira, dezembro 24, 2008

Foi daí que veio


João Pessoa é uma terra cheia de encantos que eu adoraria visitar, com suas ruas repletas de mangueiras e piriquitis. Bem, mangueiras são árvores majestosas e produtoras de manga – aquela fruta perfumada que suja o dente com fiapos amarelos. Já os piriquitis são menos famosos. Dizem que as paraibanas adoravam fazer colares, pulseiras e brincos usando a bonita semente, além de enfeitar os cabelos com as contas naturais. Gostavam tanto dos acessórios que às vezes exageravam na produção e ficavam emperiquitadas. Viu só? Foi daí que veio.

Desvendar nossa querida língua-pátria e saber a origem de suas expressões populares é uma atividade divertida que renderá boas surpresas. Afinal, eu sempre tive mais coceira de saber como nasceram algumas das mais estranhas pérolas do palavreado nacional do que como são fabricados os ônibus espaciais. Já que nunca colocarei meus pezinhos em um daqueles foguetes com cara de avião e nome de transporte público, sou mais investigar o idioma que falo diariamente e que me enche de orgulho.

Nosso português é complicadíssimo até para os mais fluentes. Diríamos, inclusive, que ele é cheio das nove-horas. Ou seja, elegante, requintado, floreado. No começo do século passado, as pessoas tinham o hábito de freqüentar missas. E as missas eram marcadas, sempre, às nove horas. Os fiéis apareciam na igreja com os melhores ternos, e as moçoilas com seus melhores vestidos, pois era um acontecimento social digno de Amaury Jr. Eis que surgiu a expressão. Quando um amigo seu chega todo arrumadinho, você não brinca perguntando se ele vai à missa? Então!

A religião nos deu várias expressões curiosas. Santo do pau oco é uma muito conhecida e usada até hoje para designar algo falso, hipócrita. Tipo aquela coleguinha chata do colégio que só conversava com você para poder fazer trabalho em grupo e passar de ano, sabe? Segundo os estudiosos, o termo vem da época do Ciclo do Ouro no Brasil. Para contrabandear o nobre metal sem levantar suspeitas, usava-se imagens de santo vazadas por dentro. Eu inclusive já tive a sorte de ver uma escultura dessas em um museu. Só não me lembro onde.

Conto do vigário também soma igreja com falcatrua. Cair em um desse é ganhar um atestado de panaca ou de alguém que é facilmente ludibriado. Ao que parece, porém, o termo original dava pista da conta do tal vigário, que comprava ouro dos escravos por um preço muito abaixo do mercado, aproveitando que os negros não tinham aula de matemática na senzala. A riqueza só acumulava na conta dele, enquanto o pobre vendedor continuava... pobre. Aliás, a palavra “vigarista” vem daí também.

Várias expressões foram modificadas pela tradição oral e acabaram totalmente tortas. O exemplo mais famoso é cuspido e escarrado, empregado quando uma coisa é a cópia da outra de tão parecida. Quando eu era pequena tinha pesadelos com esse termo. Achava um nojo juntar cuspe com escarro e ainda dizer isso normalmente. Fiquei aliviada ao saber que é uma corruptela, provavelmente, da frase “esculpido em (mármore) Carrara”. O que era uma coisa artística, virou um festival de secreções desagradáveis.

Outro que tirava meu sono era o doce pé-de-moleque. Como um quitute tão gostoso poderia levar um nome desprezível? Eu olhava para o pé do meu até então primo caçula e via uma coisa encardida com feridas e unhas grandes e cheias de terra. Sim, Thiago era avesso ao uso de sapato e travesso que só ele. Foi recentemente que ouvi falar na provável explicação: a origem seria “pede, moleque”. Pede do verbo pedir.

Dor-de-cotovelo é um termo que eu adoro e uso muito. Engraçado que sempre tive dor-de-cabeça, dor-de-barriga, dor-de-garganta e dor-de-dente, mas meu cotovelo nunca me causou maiores problemas. Mas assim como gosto de cabo de guarda-chuva e cor de burro quando foge, é só modo de dizer. Quando a pessoa está sofrendo por amor não correspondido, ela fica na mesa com as mãos na cabeça e o cotovelo forçado sobre a madeira dura. Daí dói mesmo, não tem jeito! E a dor passou do físico para o emocional. Nem precisa entrar mesa no meio.

Por falar em corpo humano, virou uma gíria muito comum dizer que algo foi feito nas coxas. Havia uma época, porém, em que coisas eram feitas nas coxas mesmo. Telhas, para ser mais exata. Os escravos, sentados, moldavam o barro ali mesmo naquela parte da anatomia, e as telhas saíam perfeitas.

A escravidão pode até ter sido a maior nódoa da nossa história, mas rendeu expressões divinas. Como encher lingüiça, vinda da atividade das negras que ficavam papeando por horas enquanto faziam as vedetes do churrasquinho. Hmm, agora fiquei com vontade de comer lingüiça na brasa. Mas é melhor eu parar de enchê-la com este texto.

Um comentário:

Luda Lassah disse...

By far, the best ever!

Adoro!