O nome dela era Samira. Eu estava saindo do mercado e aquela mulher com vestido florido e colares dourados pulou na minha frente. Levei um baita susto. Tentei desviar, mas o diabo da cigana não me deixava escapatória. Tirou minhas sacolas de mantimentos, agarrou a minha mão e, ali mesmo no meio da rua, começou a dizer tudo que estava escrito nas mal-traçadas linhas da minha palma direita. Ou teria sido da esquerda?
Enfim, o importante é que ela começou a acertar uma atrás da outra: sim, eu realmente tinha escorregado no piso molhado lá na seção de frutas; sim, eu fiquei brava porque não achei a minha marca de margarina favorita; sim, um homem com cara de mau esbarrou em mim e eu quase derrubei o vidro de ketchup que estava segurando; sim, quando vi o preço do valor total da compra, pensei em sair correndo sem pagar. Cigana danada de boa. Até me sugeriu visitar o outro mercado que, apesar de ser mais longe, era bem mais em conta!
Não... Acho que ela se chamava Esmeralda. E eu a encontrei andando pelo shopping center. Era uma daquelas feiras místicas de domingo e em uma das tendas de pano havia a placa com os dizeres "Não pergunte nada, eu sei de tudo". Bati palma (fiquei em dúvida de como fazer a aproximação, já que seria a minha primeira vez em consulta daquele tipo). Ouvi uma voz lá de dentro perguntar quem era. Pensei que talvez Esmeralda não soubesse de tudo como a placa informava. Propaganda enganosa logo de cara... Mesmo assim, entrei.
A senhora tinha brincos de argola, lenço na cabeça e enormes unhas vermelhas. Quando me sentei na cadeira, a bola de cristal se acendeu. Ok, eu vi os dedos ágeis ligarem o interruptor, mas fiz vista grossa para não estragar a atmosfera. Ela disse que eu faria uma longa viagem. Parece ser o chute-padrão de 9 entre 10 videntes. Contou também que meu grande amor estava à minha procura. Nenhuma novidade. Mas ela me surpreendeu mesmo quando revelou que era para eu parar de pintar o cabelo pois aquele tom não combinava com a cor da minha pele. E não é que ela tinha razão, pô?
Peraí! Na verdade, o nome da cigana era Carmem. Uma amiga me convenceu a bancar a acompanhante até o consultório da vidente, que lia a sorte das pessoas na borra do café. Chegando lá, a mulher nos recebeu com um abraço. Ela tinha abusado um pouco da sombra azul nos olhos e passou o batom vermelho dentro de um avião em plena turbulência. Deu uma xícara de café para a amiga e para mim. E eu que odeio café forte, tive de tomar aquele nanquim mal coado. "Até o finzinho, não pode deixar uma gota!", encorajava a esotérica.
Depois, pegou a caneca e começou a girá-la, franzindo a testa, pensativa. "Tá vendo, aqui diz que você é médica. Olha o estetoscópio", apontou. Eu olhei para a parte do borrão preto que eu imaginava ser o nariz de um dragão. Respondi era jornalista. Ela voltou a girar. "Estou vendo que você tem muito dinheiro, veja este cifrão". Eu olhei e vi foi a forma de um elefante. Respondi que minha conta no banco estava cheia de teias de aranha. Mais uma tentativa. "Me parece que você tem uma família grande, de 10 irmãos! Olha quantas pessoas à sua volta!". Eu olhei e aquilo não me pareceu irmãos - a não ser que eles fossem formigas. Respondi que tinha apenas dois. Ela então deu um suspiro e setenciou "mas pelo menos a gente tomou um cafezinho, né?".
Hmm... Pensando bem, a cigana atendia por Zoraide. Era uma mulher imensa, dona de um cabelo cor da asa da graúna e de uma voz à la Nair Belo. Sua sala fedia a cigarro, fato esse muito estranho para quem forma clientela através de "banhos de cheiro". Só esperava que o cheiro não fosse de nicotina. Pelo menos, uma pitada de patchouli cairia bem, vá. Eu estava realmente curiosa para o tal banho. Do jeito que minha vida andava para trás, aceitaria tudo o que me oferecessem para dar um jeito nela de vez.
Zoraide disse que se eu fizesse o banho direitinho, todas as energias negativas desceriam pelo ralo do banheiro e que a água purificaria meu "isprítu". Desconcentrei por um momento, refletindo sobre aquela corruptela de "espírito", mas em seguida voltei a prestar a maior atenção. Ela fez um monte de perguntas a respeito da minha personalidade e foi anotando tudo em um caderninho com letra de garrancho. No final, passou a receita do meu banho: um maço de arruda, três ramos de alecrim, cinco gotas de essência de alfazema e... sabonete Phebo.
Nada disso! Sandra Rosa Madalena era sua alcunha. Eu a encontrei em um festival esotérico daqueles que contam com uma vasta gama de "profissionais da área". Ela usava uma longa saia rodada, uma blusa de babados e uma camélia nos cabelos castanhos e compridos. Tarô era seu campo de atuação. Embaralhou as cartas rapidamente, colocou o monte em cima da mesa e pediu para eu cortar em três partes. Obedeci. Ela voltou a juntar todas e passou a abrir uma a uma.
Primeiro, veio a carta do enforcado. Ela fez uma careta. Perguntei "E aí?", mesmo com medo da resposta. Ela disse que era cedo demais para tirar conclusões. Virou a segunda carta: o louco. Outra careta. Eu me ajeitei na cadeira, incomodada. Na terceira carta, a temida figura da morte. Sandra Rosa fez cara de pena. Cochichou: "olha, garota, melhor você não saber de nada não, viu? Esquece esse negócio de tarô! Vem, vamos dançar em volta da fogueira ao som do Magal!". Pegou na minha mão.
Um comentário:
Fala sério... perfeito como sempre. Muito bom o texto, mto mto mto bom mesmo! Deixa isso aqui empoeirar não que eu sou cliente! Bjaummmmmm te amo =)))
=***
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