... porque tem trânsito para ir da sua casa à padaria. A pé.
... e, chegando na padaria, tem uma fila de dois quilômetros para comprar pão. Eu juro que entendo o sumiço dos panetones, a briga pelos perus e o congestionamento na Brasil, mas por que, ó céus, a febre de Natal atinge locais insuspeitos como a padaria, o parque, a manicure?!
... porque dezembro não tem finais de semana suficientes para comprar o presente do amigo secreto da faculdade, as bebidas da confraternização dos trekkers, as lembrancinhas do almoço de encerramento da empresa e os mimos para os 324 tios e tias da família.
... porque, mesmo que dezembro tivesse 48 finais de semana de compras incessantes, minha conta bancária não comporta, a despeito da minha frustração por não poder dar um presente para aquele tio que nunca vejo, para cada um dos amigos mais queridos e para o moleque que vende bala no sinal.
... porque bate aquela ansiedade terrível de falar com todo mundo, amarrar as pontas soltas, perdoar a colega de trabalho cretina que espalhou o boato de que você dá para o chefe, procurar aquela garota que era sua melhor amiga na segunda série e que você nunca mais viu e reunir a família que teima em ir cada parte para um canto.
... porque também bate um desespero biológico de organizar armários, gavetas, caixas, guarda-roupas, caixas de e-mail e de CDs – especialmente depois que você foi procurar o CD do Sinatra para ouvir “Have Yourself a Merry Little Christmas” e encontrou uma mídia pirata escrito “Chiclete”, com a letra da sua irmã, dentro da caixinha.
... porque eu não vejo a menor graça em panetone, não ligo a mínima para peru e não entendo a mania idiota de misturar frutas com arroz e carne na ceia.
... porque a maioria das pessoas que resolve decorar suas casas sofre de carência crônica de senso estético, de forma que você vê multiplicar, na vizinhança, fachadas que mais se assemelham a casas de tolerância, com aquele pisca-pisca colorido mal sincronizado, do que a lares decorados para a celebração da vinda do Salvador.
... principalmente, porque eu fico comovida à beça nessa época.
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